O Estado de São Paulo

Enem expõe a mediocridade da nossa educação, mas não mede o precipício entre escola e sociedade

José de Souza Martins*

O mais que melancólico resultado do Exame Nacional do Ensino Médio, de 2006, aponta à consciência do País o abismo em que se precipita a nossa educação. O nosso ensino não passou de ano: as médias são as da reprovação. É verdade que a média revela pouco e esconde muito e que, certamente, um ponderável número de estudantes teve bons resultados e não poucas escolas mostraram que fizeram a lição de casa. O que só quer dizer, então, que outros tantos tiveram resultado pior ainda do que aquele que essas médias nos mostram.

O exame não é obrigatório e milhões de concluintes do 3º ano do ensino médio nem se dão ao trabalho de submeter-se a ele. Portanto, as médias publicadas não representam de fato uma objetiva avaliação do conjunto das escolas e dos estudantes. Os que não precisam dos favorecimentos sociais decorrentes da prestação do exame, o que inclui provavelmente um grande número dos melhores alunos e das melhores escolas, dificilmente se sentem motivados a submeter-se a ele. Dentre os que se submetem há os que vêem na classificação, mesmo medíocre, um recurso para obtenção da bolsa do Pró-Uni para o acesso ao curso superior. O aluno carente proveniente da escola pública, ou bolsista integral de escola particular, tendo obtido no mínimo 45 pontos (nesse limite inferior, tecnicamente reprovado, portanto), pode ingressar em escola superior sem vestibular, quando muito, dependendo da própria escola, submetendo-se a um processo seletivo específico.

Apesar dessas ressalvas, os resultados do Enem não ficam atenuados. São confirmados em escala muito mais grave pelos resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica, nas provas obrigatórias para alunos do 4º ano e do 8º ano do ensino fundamental e alunos do 3º ano do ensino médio, também divulgados agora. Apesar de uma melhora na 4ª série do ensino fundamental, as médias despencaram na 8ª série do fundamental e na 3ª série do ensino médio para médias que correspondem, comparativamente, a menos do que a nota três do sistema regular de avaliação. E tudo isso representa decadência em relação a uma época em que a nossa educação já era ruim.

É patético que seja apresentada lista das dez melhores escolas, se tivermos em conta as médias que as consagram. São melhores porque não havia outras, pois suas médias estão muito longe do que poderia nos deixar tranqüilos quanto a ilhas de excelência no mar tenebroso da mediocridade. É espantoso que não haja escolas acima da média máxima. E a distância que as separa das dez piores é pequena.

É igualmente patético que, com base nessas limitadas médias, se estabeleça uma distinção entre escola pública e escola particular, como se a segunda fosse honrosa exceção em face da desonrosa inferioridade da primeira. Ambas, na média, se revelaram péssimas. Portanto, não é que a escola pública tenha sido batida pela superioridade da escola particular. O sistema educacional, no conjunto, é que foi batido pela degradação do ensino e pelo desaparecimento de uma mística da educação no Brasil. Muitos pais optam pela escola particular na vã esperança de abrir as portas do futuro para seus filhos. Em ambos os casos, se o que os resultados das provas do Enem revelam é futuro, que futuro nos espera?

É verdade que as provas do Enem são recebidas como se medissem muito quando, na verdade, medem pouco. Não medem a fratura que separa a escola da sociedade. Os resultados da prova do Enem em algumas regiões e municípios do Brasil mostram com clareza o abismo cultural imenso que separa a escola dos educadores e a vida dos educandos. No Brasil, a escola foi concebida, tradicionalmente, como uma escola de enquadramento das populações residuais da nossa história, a imensa massa do povo, nas premissas e concepções do Estado e, por muito tempo, também da Igreja, das elites enfim. Um instrumento para civilizar os bárbaros, como sempre foram tratadas as classes subalternas.

Continuamos com essa mania. Ela é agora agravada pelos novos missionários da partidarização antes da politização (e do cidadão) em que se converteu um imenso número de educadores, que ideologizam antes de ensinar. Educador é quem ensina para a liberdade de pensar, imaginar, criar, e não quem ensina para o cativeiro do pensamento único, da ideologia retilínia em conflito com a pluralidade das diferenças e a pluralidade do real e do possível. Sonho de quem não acolhe nem difunde a criação do sonhar, não é sonho, é pesadelo. Portanto, essa militância na educação deseduca no totalitarismo que difunde.

É de grande importância considerar que a divulgação desses dados vem acompanhada da divulgação da análise preliminar dos resultados da “Pesquisa Nacional de Qualidade da Educação: a escola pública na opinião dos pais”, por técnicos do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos. É uma pesquisa qualitativa, baseada na técnica dos chamados grupos focais, realizada em todo o Brasil. A pesquisa mostra a objetiva natureza da crítica que cabe à escola pública. Antes de tudo, a escola pública é valorizada porque seus docentes são selecionados em concurso público e, em princípio, tem melhor formação do que muitos docentes da escola particular. Mas, ao mesmo tempo, os pais se mostraram descontentes com os privilégios da função pública, responsáveis pelas greves, pelas faltas abonadas e por outros recursos de omissão dos docentes que põem, assim, os seus interesses pessoais e de classe adiante dos interesses da sociedade e dos educandos. Além disso, os novos métodos de educação, como a progressão continuada, foram firmemente criticados porque estimulam em seus filhos a conduta escolar relapsa e, no geral, a indisciplina e a falta de responsabilidade nos deveres. Os pais gostariam que seus filhos encontrassem na escola um eco para suas inquietações éticas com a importância do senso do dever, a disciplina e a reafirmação dos valores daquela parte da população que sabe que nasceu para os deveres do trabalho, e não para os prazeres das divagações.

QUARTA, 7 DE FEVEREIRO

De segunda época

Três avaliações do Ministério da Educação mostram que, no ensino médio, o desempenho dos quase 3 milhões de estudantes é o pior desde 2002. Alunos que estão terminando esse nível apresentam o conhecimento que deveriam ter na 8ª série do fundamental.

*José de Souza Martins é professor titular de Sociologia da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo


Fonte: Consultor Jurídico


 

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